quarta-feira, agosto 31, 2005

OUTRO MUNDO

Estou na Holanda.
Existe mesmo um outro mundo.
A vida sobra ao ritmo de uma pedalada de bicicleta.

segunda-feira, agosto 29, 2005

POESIA #7

Depois de uma noite de amor só a solidão me traz de volta o meu corpo.

domingo, agosto 28, 2005

POESIA #6

Quando um olhar me rejeitar, saberei o que é a dor.
Quando outro olhar me abraçar, saberei o que é o amor.
Olhares opostos, sentimentos vividos.

CEM PERDÕES

Pediu-lhe perdão mais de 100 vezes.
A todos os pedidos disse: sim.
Precisava de um não que justificasse a decisão que tinha tomado.

Pediu-lhe perdão mais de 100 vezes.
A todos os pedidos disse: não.
Precisava de um sim que garantisse a decisão que tinha tomado.

Pediu-lhe perdão mais de 100 vezes.
A todos os pedidos disse: cala-te.
Precisava de um talvez que anulasse a decisão que tinha tomado.

sexta-feira, agosto 26, 2005

TRISTES COINCIDÊNCIAS

De manhã vi o blogue "vida de cão" [de que gosto bastante] e dei comigo a refundamentar a morte. À tarde soube da morte do Serafim, um amigo de infância, da minha escola primária. Com ele partilhava o cheiro a lápis de pau e safa [o nome que dávamos à borracha de apagar], algumas traquinices e uma vontade enorme de jogar à bola. Ele morreu. Algumas das minhas memórias mais alegres perderam um dos seus mais sagazes protagonistas.

A vida pode ser uma tangente à felicidade, uma secante à morte ou uma paralela ao sucesso. Ou pode ser tudo isso em episódios diferentes. Até num mesmo sopro de momento.

quinta-feira, agosto 25, 2005

ISOTONIA

A última vez que lhe disse que o amava, estava distraído. Quando recuperou a atenção ela já não tinha prosódia nas palavras. A sua vida era uma linha isotónica.

MARCOS

A minha vida tem alguns marcos que me ajudam a estruturar as minhas memórias. Ter andado na escola muitos anos inunda a minha biografia com episódios que se passam dentro de quatro paredes de emoções acinzentadas. Sempre aspirei ao amarelo, mas saiu-me cinzento apardaçado.

VENTO

Passear pela praia ajudava-a a pensar melhor os problemas. O vento frontal dificultava-lhe o passo e obrigava-a a fechar os olhos de quando em vez. Era este fechar-se intermitente ao mundo que lhe trazia a lucidez distanciada que precisava.

quarta-feira, agosto 24, 2005

DIMINUIÇÃO VERBAL

Os diminutivos ainda não fazem parte da sua prática verbal. Reage mal à diminuição vocabular. Para ela, que tem três anos, tudo tem que ser grande. É por isso que chama golfo ao golfinho insuflável que a ondula na piscina, ou coza à cozinha onde almoça todos os dias.

Chamo a isto poupança criativa.

CURRICULUM MORTIS

Todos temos um curriculum vitae mais ou menos extenso. Confesso que o meu curriculum mortis me ocupa mais tempo em actualizações do que o outro. Foi nele que coloquei a minha passagem académica pelo Liceu da terrinha onde cresci e algumas das idiotices descriativas que me assolam todos os dias.

DISTRIBUIÇÃO

A gordura e o dinheiro estão mal distribuídos.
Acho o mesmo de outras coisas.
Será que há alguma coisa que esteja bem distribuída?

terça-feira, agosto 23, 2005

VITALÍCIO

Olhou para mim desesperada. A renovação do Bilhete de Identidade tinha-se transformado num tormento.

- Imagina tu que o meu BI agora é vitalício!

Percebi que ela lia vitalício, mas percebia mortalício. A angústia tinha prazo.

segunda-feira, agosto 22, 2005

MAR

Trazia as sobrancelhas carregadas de mar.
Os seus olhos choraram o descanso.

DOR

Não se pode ser sózinho!

As imagens dos incêndios trazem-me a dor de outros que não queria minha. Não lhe posso fugir porque não é minha. Não a posso negar porque não a sinto comigo.

Fuga e negação em Dó maior! Sem conserto.

POESIA #5

Alguém
viveu com prazer o encontro
colheu com o corpo o conforto
lançou com a voz o lamento

Ninguém
impediu o momento

PRODUTIVIDADE

De volta à blogosfera deparei-me com a constatação de que muita gente escreve poesia de forma continuada e aparentemente feliz. Ainda há quem se afaste do frenesim da produtividade, da corrida sem objectivo: são os “pensadores e poetas”. Categorias que tantas vezes nos surgem como mutuamente exclusivas.

Não penso que o sejam. Nem categorias mutuamente exclusivas, nem homens e mulheres que se afastem do frenesim da produtividade, pois este é um movimento que todos nós podemos ciclicamente fazer. Por vontade própria, ou não.

Como quando escrevemos sobre o que nesse instante nos dita a nossa consciência. Essa que não precisa de lavagens. Que chega mesmo a recusá-las.

domingo, agosto 21, 2005

TÍTULOS #1

"Davam grandes passeios aos Domingos".
Acabou-se-lhes a gasolina da vida.

DESCANSO

Preciso de uma boa semana de trabalho para descansar das férias.
A leitura de alguns blogues também ajudam a voltar à normalidade.

FOGUEIRA

Voltei!
Nunca me senti tão próximo do inferno. As chamas pelo distrito de Viana de Castelo dão-me uma dimensão minúscula.

EXERCÍCIO

É o delírio de Verão. Colocar números em filinhas ordenadas, sem repetições com algumas restrições é um exercício fenomenal. Já tivemos o Sandokan, o Sangoku, o Mário Soares e agora temos o Sudoku (em português não soa lá muito bem, mas ...).

sexta-feira, agosto 05, 2005

OUVIDO

Conheço a vida,
de ouvir falar,

a culpa,
de ouvir rezar

o prazer,
de ouvir gemer.

Tudo me chega a dobrar.

EXPLICAÇÃO

Durante uns dias, não vou poder publicar as minhas postas.
Vou tentar, mas não estou certo que a rede chegue ao nó para onde vou.
Aos assíduos visitantes deste blog, deixo abraços igualmente assíduos.

COR

Qual é a cor-de-rosa?
É cinzenta.
Quase preta.
Quase morta

CIGARRO

Fui ao café. Enquanto aguardava pelo cafeínico despertar ritual, um homem, provavelmente utente do serviço de Psiquiatria do Hospital de S. Marcos, que é perto, dirigiu-se a mim e pediu-me um cigarro.
Disse-lhe que não fumava. Ofereci-me para lhe dar um maço.
O homem virou-me as costas, saiu do café, e ainda olhou para trás com um olhar que não esquecerei.Fiquei sem saber uma de duas coisas: se o olhar era o de alguém que achara que as minhas palavras eram gozo; ou se me olhava com o desdém com que se olha alguém que nos quer roubar os poucos momentos em que o fio dos afectos, mesmo que traduzido no pedir de um cigarro, ainda subsiste.

Triste de mim, que vim de Alma prá rua...
(Mário de Sá Carneiro, Poesias Completas, 1915)

quinta-feira, agosto 04, 2005

AGOSTO

Preparo-me calmamente para fazer praia onde o Inverno passa o Verão. Estar na praia, sem estar. Estar no campo, sem estar. Estar na vida, sem estar. Estes entremeios alegram-me no mês de Agosto.

POESIA #4

A vida entra-me turva pelos dias dentro.
As noites repousam-me o esforço.

quarta-feira, agosto 03, 2005

POESIA #2

Não creio que a vida mereça um só credo.
Não acredito na solidão acreditada.

terça-feira, agosto 02, 2005

RECEIO

Há uma tendência na educação para tudo dogmatizar. Este movimento cristalizador é compreensível se pensarmos que a diversidade de episódios e necessidades de resolução (sem recurso à autoridade) é tão vasta que precisamos ter algumas ideias estruturantes para nos sentirmos mais seguros. É tranquilizante estabelecer relações de causalidade linear entre, por exemplo, a hiperprotecção parental ou o sentimento de insegurança e desajustamento emocional e intelectual.

Receio que se as ciências humanas se transformarem em ciências exactas os romances deixarão de ter palavras e passarão a ter equações de regressão.

AUSÊNCIA

Escrever é cheio de casca e de pérola.

Manoel de Barros

segunda-feira, agosto 01, 2005

CITAÇÃO

Os outros, o melhor de mim sou eles!

Manoel de Barros

DEDICÁCIA

A ideia de que escrevemos para alguém inexistente é um desafio entusiasmante. Contudo, rapidamente percebemos que há sempre alguém que acaba por nos ler e/ou comentar. Hoje quero apenas partilhar o regozijo pelo facto dos comentários a este blogue serem cada vez mais.

Um dia escrevi num texto um agradecimento aos “meus auores” que, mesmo sem saberem, me inspiraram com pequenas frases que li como incentivos e dedicatórias. Há poucas coisas tão gratificantes como a descoberta de que outros partilham ou criticam o que pensamos e escrevemos. São estas as verdadeiras dedicatórias. Pura dedicação sem contrapartida.