CIGARRO
Fui ao café. Enquanto aguardava pelo cafeínico despertar ritual, um homem, provavelmente utente do serviço de Psiquiatria do Hospital de S. Marcos, que é perto, dirigiu-se a mim e pediu-me um cigarro.
Disse-lhe que não fumava. Ofereci-me para lhe dar um maço.
O homem virou-me as costas, saiu do café, e ainda olhou para trás com um olhar que não esquecerei.Fiquei sem saber uma de duas coisas: se o olhar era o de alguém que achara que as minhas palavras eram gozo; ou se me olhava com o desdém com que se olha alguém que nos quer roubar os poucos momentos em que o fio dos afectos, mesmo que traduzido no pedir de um cigarro, ainda subsiste.
Disse-lhe que não fumava. Ofereci-me para lhe dar um maço.
O homem virou-me as costas, saiu do café, e ainda olhou para trás com um olhar que não esquecerei.Fiquei sem saber uma de duas coisas: se o olhar era o de alguém que achara que as minhas palavras eram gozo; ou se me olhava com o desdém com que se olha alguém que nos quer roubar os poucos momentos em que o fio dos afectos, mesmo que traduzido no pedir de um cigarro, ainda subsiste.
Triste de mim, que vim de Alma prá rua...
(Mário de Sá Carneiro, Poesias Completas, 1915)

1 Comments:
eu escolho o louco do fio dos afectos... ainda que seja a "escolha" mais triste.
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