Prefiro um papo-de-anjo a um sonho. Prefiro um pinhão seco a um tronco de natal. Prefiro um voto de festas passadas ao desejo de um ano novo. Para mim os anos nunca são novos. Nascem tarde e duram pouco.
No debate da nação (leia-se Soares vs Cavaco) aconteceu algo de paradoxal. Cavaco, atacado por querer presidente ministro comportou-se como um presidente da república. Soares, o presidente dos presidentes revelou-se um excelente líder da oposição. As emoções distorcem e contorcem os comentários.
Há um candidato em greve de forme. Há um outro em greve de palavras. Um outro em greve acreditação de sondagens. Ainda outro em greve de ideias novas. Um mais novo em greve de resultados. E, finalmente, um outro sem greve.
As últimas sondagens são muito claras. À partida o candidato Silva será o próximo ocupante do palácio de S. Bento. É também provável que Soares ganhe à primeira volta a eleição da esquerda. Mais preocupante é o resultado de Louçã e Sousa que terão de pagar a sua campanha por não terem sequer 5% dos votos. Como podem constatar as sondagens são muito claras.
Ainda tenho duas datas disponíveis até 25 de Dezembro para festas de Natal. Alguém me quer convidar? Levo vinho - Duas Quintas Reserva de 2002 -, Bolo-Rei escangalhado e um violão para embalar emoções.
Alguém ainda se lembra que Macau foi um território chinês sob administração portuguesa? A nossa porta de entrada na Ásia? Portugal nunca foi um país de passar por portas, e estilo é maiso de passar por baixo da mesa.
Nos últimos dias tenho lido o Diário Económico com uma atenção redobrada. Espero que o meu esforço seja coroado com o convite para aceçor de economia do futuro Presidente da República. Já agora, espero que o Louçã e o Silva sejam eliminados à primeira volta ... assim aumento as minhas possibilidades de me tornal um asseçor presidencial.
PS (sem conotação sufragista): assessor, acessor, asseçor, aceçor ... palavras homófonas e igualmente compensatórias.
A minha filha de quase quatro anos tem uma relação particular com as palavras. Quando cheguei a casa fui apanhado logo à entrada da porta com uma pergunta directa: "Já viste a minh'álete? Respondi-lhe: "Não percebo!". "A minh'álete, Papá! Estou bonita?" - perguntou-me. Fez-se luz e gargalhada reconfortantes. "A toillete é muito bonita! Fica-te bem!" As palavras beijam-lhe as ideias.
Tenho saudades do colo da minha avó. Da minha pequena avó-árvore. Das suas mãos velhas e quentes. Dos seus passinhos instáveis que a aproximavam de mim. Dos seus caramelos de despedida. Da roupa a cheirar a maçã bravo esmolfe. Dos seus olhos cinzentos. Das palavras que tão raramente proferia.
A minha avó teria hoje 109 anos. Nada, nem o tempo corrido, a separa de mim.
Quando caiu a avionete com Sá Carneiro e acompanhantes, eu ia a caminho de um treino de hóquei em patins. Quando cheguei ao pavilhão fui informado do acontecimento e um dos dirigentes, o Sr. Zé Leite, perguntou-nos se queriamos treinar. O Xanfra [alcunha do Miguel] perguntou-lhe se a avioneta tinha caído no pavilhão. Perante a resposta negativa fizemos o nosso primeiro treino com notícias radiofónicas em ambiente sonoro de fundo.
Assisti atentamente ao primeiro debate presidencial. Só que a minha televisão tem o som avariado. Foi curioso ver como um dos candidatos [o de barbas] sorria, gesticulava de forma aberta, espontânea ... o outro [o de queixos] não me pareceu abrir a boca. Não é suposto falarem os dois? Não era um debate?
Uma colega perguntou-me se me sentia diferente por já ter 40 anos. Disse-lhe que sim, que finalmente estava a conseguir mandar algumas pessoas à merda. Ela ficou muito ofendida. Eu fiquei muito aliviado.
Como devem ter reparado desde quinta-feira que não posto. Tenho andado em preparação para os debates presidenciais. Começam hoje! Cavaco versus Alegre. Os versus vão melhor com o Manuel do que com o Aníbal. Espero que seja premonitório.